domingo, 23 de março de 2008

O MACACO E A VELHA

Era uma casa em cima do morro. A velha morava lá. Na frente tinha jardim e atrás um montão de bananeira. Perto da porta da cozinha ficava uma escada de pegar banana. A escada quebrou. As bananas estavam madurinhas.
Um macaco vinha passando e a mulher o chamou:
- Me ajuda a catar?
O macaco disse sim. Trepou pelas folhas, deu um suspiro e desabou a comer tudo quanto foi banana bem bonita.
A velha gritou:
- Safado!
O macaco ria.
- Pilantra!
A mulher ralhava. O macaco só jogava pra velha banana verde ou então fedida, cheia de mosca e mancha preta. Depois o macaco deu até logo e foi embora.
A velha juntou a banana que sobrou, xingando e caraminholando.
Mandou fazer uma boneca grudenta de cera. Botou na porta de casa, junto de uma cesta cheia de banana. E ficou agachada espiando.
Passou um dia. Nada.
Passou outro dia.
No terceiro, o macaco passou e sentiu um cheirinho bom. Veio chegando:
- Ô Catarina! Quero banana...
A boneca nem se mexeu. No céu, um sol de rachar.
O macaco pediu outra vez. A boneca quieta. O macaco falou grosso:
- Me dá uma banana, ô Catarina, senão leva um tapa.
A boneca nada e ele - pá - deu e ficou com a mão colada no beiço da moça de cera.
- Larga minha mão senão leva um beliscão!
A boneca nem ligou. O macaco deu e ficou com a outra mãos presa.
- Me solta, ô Catarina! Me solta senão toma um chute!
Esperou que esperou. Meteu o pé e ficou mais grudado ainda.
- Diaba! Moleca! Me larga, ô Catarina! - berrou o macaco preparando outro pé.
Chegou a velha arregaçando os dentes:
- Agora você me paga!
Levou o macaco lá dentro e mandou a cozinheira preparar o coitado pra comer na janta.
A empregada foi e fez.
Na hora de matar, o macaco revirou os olhos e cantou:
Me mata devagar
Que dói, dói, dói
Eu também tenho filhos
Que dói, dói, dói
Na hora de esfolar, o macaco cantou:
Me esfola devagar
Que dói, dói, dói
Eu também tenho filhos
Que dói, dói, dói

Na hora de temperar, o macaco cantou:
Me tempera devagar
Que dói, dói, dói
Eu também tenho filhos
Que dói, dói, dói

Na hora de assar, o macaco cantou:

Me assa devagar

Que dói, dói, dói

Eu também tenho filhos

Que dói, dói, dói

A cozinheira serviu o macaco num prato enfeitado com arroz, feijão-preto, couve, farofa e mandioca frita.

A velha estalou a língua, sorriu, cortou um pedaço e mordeu.

Na hora de mastigar, o macaco cantou:

Mastiga devagar
Que dói, dói, dói
Eu também tenho filhos
Que dói, dói, dói

A velha estranhou, apertou os olhos mas comeu tudinho. Foi quando deu uma dor de barriga daquelas, pior que rebuliço nas tripas. A mulher levantou, sentou, andou prá lá e prá cá. Não teve jeito, era o macaco pedindo:

- Quero sair.

A velha respondeu:

- Sai pelas orelhas.

- Não posso não, que tem cera - gritou o macaco - Quero sair!

A barriga da mulher doía.

- Sai pelo nariz.

- Tá assim de gosma. Quero sair!

A barriga roncava cada vez mais.

- Sai pela boca.

- Pela boca tem cuspe. Quero sair!

Aí a velha estufou, estufou e pum!

Foi um estouro que se ouviu lá de longe.

E de dentro dela saiu o macaco e mais um bando de macaquinhos, tudo viola, dançando e cantando:

Eu vi a bunda da velha ,

Eu vi a bunda da velha ,

Azevedo, Ricardo. Histórias que o povo conta. São Paulo: Editora Ática, 2002. p. 26-30

3 comentários:

Carmélia Cândida disse...

Olá!
Adoro essa história e já a contei diversas vezes em minhas contações. Sou uma grande fã do Ricardo Azevedo.
Parabéns pelo blog e, depois, faça uma visitinha ao meu.
Inté...

Jorge Ramiro disse...

Eu também gosto muito dessa história. Eu vendo ração proplan nos petshops do Rio e eu sempre encontro um novo cliente para contar essa história.

Vania disse...

Boa noite!

Minha tia me contava uma bem parecida, só que com um menino e uma baleia.